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Lygia Sigaud
28.02.1945 - 09.04.2009

Lygia Sigaud nos deixou há poucos dias, legando-nos o vazio da perda da amiga, colega e pessoa humana, mas também a plenitude daquilo que fez e dos planos do que estava por fazer.

Ela foi da primeira turma de estudantes do Programa de Antropologia, fundado por Roberto Cardoso de Oliveira no Museu Nacional em 1968, e logo já fazia parte da equipe de professores, tendo enorme presença sobre todas as gerações posteriores. Engajou-se no projeto de pesquisa coletivo que envolvia as equipes iniciais do PPGAS-MN, na vertente que fazia trabalho de campo no Nordeste.

Toda sua trajetória profissional teve como tema de preocupação central o estudo de processos de transformação social envolvendo camponeses e trabalhadores rurais, inicialmente da zona da mata canavieira de Pernambuco e depois de diversas áreas do país. Seus primeiros trabalhos nos trouxeram o impacto da persistência da busca pelos direitos - recém conquistados nos três primeiros anos da década de 60 – por parte destes trabalhadores, mesmo diante da repressão que se abateu na região e que estava em plena vigência quando iniciou sua pesquisa em 1969. A sua análise sobre o aparente paradoxo da simultaneidade de uma idealização do passado da relação de morada por parte dos trabalhadores residentes dos engenhos tradicionais, por um lado, com a busca por direitos sociais no presente, por outro, foi inspiradora do interesse crescente dos cientistas sociais e historiadores do país pelas concepções e pelos usos do direito por parte dos trabalhadores na história brasileira recente. Esta linha de pesquisa continuou, no livro Os clandestinos e os direitos, com a parcela de trabalhadores que sucedeu aos moradores tradicionais – os “clandestinos” ou trabalhadores não registrados – recrutados por agentes de mão de obra nas “pontas de rua” ou pequenas favelas das cidades locais para as intensas jornadas de trabalho nas propriedades e plantações de cana. Lygia foi testemunha, na segunda metade dos anos 70, das mobilizações coletivas que eclodiriam na área desde 1979. Por ter estudado as relações sociais na zona da mata pernambucana da virada para os anos 70, até os anos recentes, Lygia nos fornece um panorama completo das transformações ocorridas sucessivamente na área. Nos anos 90 passa a analisar o fenômeno das ocupações de terra e a série de acampamentos de trabalhadores nos próprios engenhos, quando de um período de declínio das propriedades canavieiras, quando então reuniu uma equipe bi-nacional de pesquisadores e alunos do PPGAS-MN e da Ecole Normale Superieure de Paris para estudar diferentes aspectos destas transformações. Em 2002 coordenou a exposição temporária “Lonas e Bandeiras” no Museu Nacional, resultado estético áudio-visual da pesquisa sobre os acampamentos.

Lygia também estudou, no final dos anos 80, as repercussões da construção de grandes barragens sobre populações camponesas, a perda de suas terras e de sua vida social local, assim como seus deslocamentos e recomposições sociais, através da análise comparativa destas obras no Nordeste e na região Sul. Também nesta pesquisa orientou dissertações e teses sobre o tema. 

Além de ter sido professora do PPGAS-MN-UFRJ ao longo de sua carreira, foi também professora do Depto. de Sociologia da PUC-Rio e do Departamento de Antropologia da UnB. Posteriormente deu cursos na École Normale Superieure de Paris, na Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociales da mesma cidade e no Programa de Antropologia da Unicamp. No Museu Nacional foi chefe do Departamento de Antropologia, coordenadora do PPGAS e editora da revista Mana-Estudos de Antropologia Social. Foi vice-presidente da associação dos docentes da UFRJ.

No exterior, e em particular na França, teve uma presença importante como professora e pesquisadora. Sua experiência de pesquisa sobre os direitos sociais entre trabalhadores rurais e suas reflexões acumuladas sobre o tema, assim como a vivência comparada de diferentes campos intelectuais nacionais, levaram-na a iniciar interpretações sobre a teoria antropológica e sua história, através da recepção e das apropriações feitas pelos antropólogos ao texto do Ensaio sobre o Dom de Mauss. Tanto para este ensaio publicado na revista Mana, como para a longa apresentação que fez à tradução pela Edusp do Sistemas Políticos da Alta Birmânia de E. Leach, realizou pesquisas de arquivo na França e na Inglaterra, assim como delineou um programa de trabalho em torno das condições sociais da originalidade na Antropologia Social.       

Estava preparando para publicação três livros, consolidando resultados de novas análises sobre pesquisas de longa duração, assim como análises sobre pesquisas mais recentes. Os temas das repercussões do direito nas transformações sociais, da história comparada das ocupações de terra e das reivindicações de reforma agrária em Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, e o das condições sociais da originalidade na teoria antropológica estão presentes nestes manuscritos em estado adiantado de redação.

Além do rigor acadêmico, da grande capacidade de pesquisa e do comprometimento institucional, que a caracterizavam, Lygia Sigaud sempre manifestou um forte engajamento político na ampliação do processo de democratização no Brasil - através dos resultados mesmo de suas investigações científicas, através do assessoramento a trabalhadores rurais, através da participação em diretorias de associações universitárias. O sentimento de cidadania, de coisa pública e de solidariedade social foi uma constante em sua vida, precocemente abreviada.

Rio de Janeiro, 13/04/2009

José Sergio Leite Lopes
(em colaboração com Beatriz Heredia e Rosilene Alvim)