Gilberto Velho: intelectual, publicista *
Em 1973 foi publicado um livro curto, de aparência despretensiosa, chamado A Utopia Urbana: um estudo de antropologia social. Seu autor era um jovem intelectual, recém chegado de um doutorado nos EUA, professor do então recente programa de pós-graduação em antropologia social do Museu Nacional (RJ). Gilberto Velho começava ali uma brilhante carreira acadêmica, associada a uma antropologia urbana que ele foi pioneiro em construir no Brasil.
Aquele trabalho deslocava o foco da pesquisa para o cerne urbano de uma sociedade em rápida modernização, às voltas com toda sorte de problemas sociais, com o autoritarismo político em seu ápice. Essa complexidade, essa instabilidade, exigiam um esforço de interpretação que não recorresse apenas às grandes teorias, mas fosse às pessoas, as ouvisse e tentasse compreender suas motivações e impulsos. A Utopia Urbana se baseava em entrevistas diretas e densas com os moradores de um prédio de apartamentos da frenética Copacabana, gente que se deslocara de bairros distantes para compartilhar das benesses cobiçadas da Zona Sul carioca: novas formas de lazer, de sociabilidade, de recursos diferenciados de vida.
Creio que o último de seus trabalhos tenha sido um artigo ainda inédito sobre as relações entre os patrões de classe média e seus trabalhadores domésticos. Desvela aí, com o tom terno das evocações pessoais, a complexidade das tensas negociações de realidade que fazem se cruzar as diferenças sociais e culturais, o ethos econômico e religioso divergente, os confrontos entre projetos de vida e trajetórias de sobrevivência contraditórias.
Ele acaba de falecer. É uma grave perda pessoal para todos os que o conhecemos; mas é sobretudo a perda de um combatente aguerrido, que, nas páginas dos jornais, nas aulas memoráveis, nos foros coletivos ou nos artigos científicos, nunca deixou de unir a competência acadêmica ao compromisso comum. Ele, que tanto estudou os projetos de vida, legou-nos o seu, próprio, como exemplo.
Luiz Fernando Dias Duarte
Professor do Museu Nacional / UFRJ; Vice-Presidente da Associação Brasileira de Antropologia
* Texto publicado sob o título “Com morte de acadêmico, país perde combatente aguerrido” na edição de 16/04/2012 de “A Folha de São Paulo”